segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

SALOMÃO: UM GATO QUE NÃO QUER SER GENTE


                 
SALOMÃO É UM GATO, SIM, MAS UM GATO QUE MERECE RESPEITO: é sociável sem ser enxerido; é afável sem ser servil; é espontâneo sem ser exibido; é altivo sem ser arrogante; é tímido sem ser omisso; é vaidoso sem ser afetado. Mia, como mia qualquer gato que não faz pouco da natureza dos bichanos. Mas ainda assim de um jeito contido de quem não gosta de mastigar a paciência dos outros.
E é ainda de se dizer que divide o espaço com Valentina, sua pareceira na espécie, na raça e em um tal de afeto que, caso dessem valor a chavões, eles mesmos chamariam de amor platônico, no sentido de que virtuoso. Isso porque é mesmo esvaziado de convocações  carnais. Não por escolha (pois que imagino que, de querer mesmo, haveriam de preferir uma mancebia) mas porque a crueldade humana (e pelo menos nesse caso nem uma mãozinha eu dei) arruinou os testículos dele e desativou os ovários dela, arrancando dos dois os ofícios da libido e reprodução. E nisso a birra capitalista dos gatis pela reserva de mercado.
Mas o fato é que eles se respeitam. Como nós humanos haveríamos de nos respeitar, aliás: como iguais que somos nesse destino de compartilhar presenças e de misturar identidades. Ainda, no que se refere a nós, que por mera conveniência, logo sem nenhum recheio de sincera solidariedade, já que mais prático e eficiente para prevenir desgastes evitáveis. Mas o fato é que essa ideia, a cada vez mais, parece não ser tanto do nosso gosto. E por isso mesmo não é do nosso empenho encená-la à vera. Embora digamos o contrário. O que não é de causar surpresa nesse mundo nosso que anda afogado em propósitos de faz de conta.
                  Salomão é um gato, sim, mas um gato que dá exemplo de sossego, de tolerância, até mesmo de alguma generosidade (embora digam que os gatos são egoístas). É senhor do seu terreiro sem carecer ostentar dominação. Dominação é coisa que fica para quem não aquieta, dentro de si mesmo, aquele gosto amargo de que tendo chegado ao poder, à opulência ou até a uma posse disfarçada pela aparência de amizade ou de paixão, sabe muito bem que lá desembarcou sem merecimento algum. Ou até que lá chegou ao custo de pisar nos outros, fazer de degraus quantos lhe passaram pela frente ou de se ter visto erguido pelo oportunismo ou pela troca de favores. Por isso que esse tipo de montanhista remói uma desesperada necessidade de impor o próprio  vulto, de expor uma importância em que termina acreditando que na verdade a tem. Uma forma de resgate que tolamente espera conso, pelo berro, pela caneta ou pela ideia que alardeia do mal que pode fazer.
Pessoas que talvez se enganem com a fantasia de que não vão morrer nunca. Ou pior, que se iludem com a falácia de que lugares cativos os aguardam no Éden. Tal e qual Jesus, de quem se diz reservada a poltrona que se arrumou à direita do seu pai. Sem que se afaste a hipótese de quem até pense que, uma vez desligado da carne, não há erro de que não será festivamente introduzido na sala do trono do castelo do promontório divino, mas de que, ao lá apontar, logo cuidará o Nazareno de servilmente lhe ceder o assento que reconhece não ser seu, resignando-se a arranjar um outro lugar para se acomodar.
                  Salomão não tem nada desse tipo de pretensão ensebada. Talvez por ser gato. Talvez porque não carece amansar, dentro dele mesmo, certas frustrações e certos recalques que teria ido ajuntando pela vida afora. Mas muito mais provavelmente porque apesar de ser gato pensa e age com muito mais juízo do que muita gente que se atesta com discernimento.  E até porque tenha consciência de que não guarda direito de sonhar, nem mesmo, com um tamborete no céu. Ao menos pelo que os cristãos decidiram (não se sabe por sobre qual evidência). Para estes eleitos bicho não tem alma imortal. Pronto! Daí por que se desmancharão de um todo quando os seus músculos se liquidificarem debaixo do chão. Se bem que até pode ser que a animália ganhe com isso, já que não terá, como o tem muita gente, de levar a vida simulando fervor devoto, pia contrição e teatral generosidade. Essa farsa inútil de quem acredita que com ela engabelará o onisciente gestor do universo e das existências mundanas. No mínimo um habeas corpus preventivo que lhe garanta passar longe da fornalha atiçada por Mefisto.
                  Houve um tempo em que estive atirado a uma desquerida indiferença a tudo o quanto me rodeava. Andava farto do fatigante fazer nada a que me obrigava o destino de ter tido o crânio serrado e os miolos expostos e bulidos. Andava mesmo era assuntando a esperança de que o meu juízo não se tivesse sido estruído de vez. Nem o juízo nem a pilotagem da voz e dos movimentos, estes que são armas do corpo e notícias da mente.
Foram dias de falta de coragem para me pôr em pé, de ausência de viço para caminhar, para ler, para escrever, para falar ou ouvir ao telefone, de falência de ânimo para achar um tico de graça no que quer que fosse. Para falar a verdade, nem às estripulias do Professor Raimundo e seus alunos caricatos eu dava a mínima atenção. Inclusive, por incrível que possa parecer, até passavam despercebidas as curvas eloquentes e balouçantes dos quartos de Dona Capitu. Ela que era sempre a encarregada de operar o apagador e reabilitar o quadro-negro. Não porque um seu talento especial recomendasse a sua escolha a dedo para o cumprimento da missão, ao modo de como, pelo que se acredita, Michelangelo foi chamado para espalhar afrescos pelo teto da Capela Sistina e pela parede que nela fica por trás do altar. No caso de Dona Capitu também se tratava de uma predileção. Mas que estava escornada num pretexto dos marmanjos para que pudessem lamber com os olhos as suas coxas grossas e roliças, sua bunda maciça e volumosa e, ainda por cima, prevenir qualquer controvérsia acerca da cor da sua calcinha. De alguma forma parecido com a preferência por este ou aquele pretendente a um cargo insigne. Não são os seus valores que de rigor o credenciam. O que interessa é a premeditação, pelo graúdo e protagonista da escolha, de que é aquele aspirante o que promete maior proveito frente aos  caprichos e aos interesses personalistas de quem decide. Eis aí, não raro, o preço de um trono efêmero ou de um título manteigoso.
Pois foi naqueles meus dias de desânimos e de um certo desespero que lá estava Salomão com seu olhar morno e calado de quem não gosta de se amostrar. De quem não acha que uma simples pelagem, ou no seu caso a exótica pele imberbe,  seria o bastante para fazê-lo mais ou menos do que qualquer outra criatura. Até mesmo porque a pelagem ou a falta dela, assim como os cargos, a fortuna e o poder, da mesma forma que a elegância faustosa e os modos monárquicos, até que podem, por algum tempo, nos assinalar no meio da multidão. Nunca, porém, fazer-nos melhores ou piores do que quem quer que seja. Isso quando não servem mesmo é para fazer mais saliente o engodo em que nos encastelamos.
Até dava para achar que Salomão tinha ciência e consciência de tudo o que se passava comigo. Se não, também, do que de indesejável poderia estar a me ser anunciado para o futuro. Não que se apiedasse de mim, pois que seria exigir demais de um gato, mesmo que fosse um gato tão ajuizado. Talvez entendesse, porém, que eu não cobrava benevolência e muito menos piedade, mas apenas companhia e um tico que fosse de  ternura. E o melhor era que não metia o focinho onde não devia, passando longe de se arvorar em médico ou curandeiro e de atormentar-me com um monte de prescrições sussurradas por uma sabença pedante ou pela mania que se tem de sempre enfiar o bedelho na vida dos outros. Mesmo que com a melhor das boas intenções. É que reza a experiência que, no frigir dos ovos, até elas podem ser máscaras do fingimento e da arrogância, da inveja e da frivolidade. A arte do oportunista copia a manha que se adivinha no camaleão.
E olhe que por aqueles dias ainda mal nos conhecíamos. Fazia pouco tempo que Salomão chegara lá em casa. Era ainda um bebê de quatro patas, careca de corpo inteiro, olhos que, de tão redondos, vastos e escancarados, pareciam duas luas cheias pintadas de um primaveril amarelo-ouro. A pupila oblonga, como ainda hoje, é que falava por ele. As orelhas, como não tem jeito de não continuarem sendo, já eram muito grandes e empinadas, os cumes pontiagudos como sendo os de folhas lanceadas de um pé de manga. O seu rosto meigo até que lembrava certas figurações de hipotéticos e amigáveis seres de outras galáxias.
Confesso que a princípio incomodou-me a cena importuna do seu rabo comprido, delgado e pelado, em que a pressa de alguns  leva a enxergar semelhança com a cauda bizarra e repulsiva de um cassaco. Mas isso fica por conta da nossa preferência pela casca, da mania de julgar antes de refletir, como se um tico de qualquer coisa fosse o bastante para testificar o todo. Além do mais, que importância tem se aquele apêndice anatômico de um gato é fino ou grosso, se é peludo ou glabro? Deixaria ele de ser o que é e como é pelo simples fato de alguém preferir que não fosse assim, que a genética tivesse lhe dado um outro jeito na sua arquitetura corporal?
Não quero julgar ninguém. Sei, contudo, por experiência própria, que há gente que se vê dona de toda a importância do mundo. Pessoas que, de tão repletas de uma vaidade que esborra pelas beiradas de um ego enfartado, até se acham no direito de ser as censoras da engenharia da natureza. Não se dão conta, nem mesmo, de que as suas presenças no mundo, num estalar de dedos, ligeirinho não serão mais de anotações dispersas em algum arquivo morto. E que nem terão a chance de ler os epitáfios que tenham porventura testamentado às louças que darão certezas das suas extinções.
Podem dizer que estou sendo meloso o mais da conta ou até patético. Mas o fato é que sempre achei que os animais são como a gente. Se não em tudo, quais transcrições de carne e osso, em um monte de coisas: desde que gerados, assim como nós, encaram o desafio do risco de que poderão morrer de uma hora para a outra, antes mesmo de nascerem, seja por isso ou por aquilo; amam ou desamam, assim como se dá com qualquer batizado ou qualquer pagão; são gratos como haveriam de ser os que se arvoram ajuizados; ruminam antipatias e até cevam malquerenças. Se não são tal e qual é porque não odeiam por odiar, não amam como arapucas para capturar bem-querer, não constroem ardis nem metralhadoras nem mísseis para dizimar os iguais, sem um naco de piedade pelos aleijados, cegos e recém-nascidos. Não mais, muita vez, pelo modo como as suas presas louvam as divindades em que acreditam, pelo jeito como falam ou escolheram para tocar a vida, por um pedaço de chão onde plantar uma roça, para alagar domínios ou ordenhar o chão, ávidos de riquezas. Não bastasse, chegam a entronizar os seus deuses como legisladores e inventam princípios e preceitos que, a eles atribuindo as suas edições, deles se valem para oprimir os outros. Ou não foi assim que nasceu a escravidão dos chamados filhos do lendário Cam, que se engendram as castas no universo indiano, que até o estupro, por aí afora, foi por tanto tempo dado como menos afrontoso à mulher violentada que aos seus proprietários pelo concepção ou pelo matrimônio?
E se os bichos não têm o direito de acreditar que carregam alma imortal (ainda que não seja tão importante assim) é só porque o dizem aqueles que botaram na cabeça que a encarnam. Não sei se acertada, presunçosa ou delirantemente, pois que coisa que só haverei de ter certeza (ou nem isso) quando finalmente já não puder testemunhá-la, ao menos cara a cara, aos humanos que ainda teimem com continuar respirando. Além do mais, por que os ditos irracionais iriam querer uma alma se, pelo exemplo dos crentes, andaria sufocada por uma multidão de instintos mal gerenciados e encardida pela impostura e pela malvadeza?
Salomão é diferente dos homens. É um felino que, como outro qualquer, pode não pensar como pensamos mas que ainda assim tenho certeza de que pensa. Pode não falar com palavras, mas se revela pela voz calada das suas pupilas. Pode não encarnar uma alma imortal. Mas se ela, pelo visto, não tem serventia para nos exorcizar dos nossos demônios, é por isso mesmo muito melhor do que se a tivesse. Um alvo a menos para as tantações dos anjos decaídos. Uma coisa a menos de que se envergonhar. E se insistimos tanto em bater o pé para desacreditar na inteligência nos bichos e etiquetá-los como desassistidos de espírito, é porque talvez não consigamos fazê-los ser à nossa imagem e semelhança. Da forma como fizemos com a divindade que, pelo que fala a tradição, criou tudo o que pode ser visto ou não pode, que superintende a nossa romaria e o nosso destino. E amparados pela imaginária excelência de que nos dotamos, falseando os desígnios da criação, lá vamos nós mentindo aos outros e a nós mesmos, traindo os  nossos semelhantes e a própria divindade de quem dizemos misericordiosa mas em cujo nome exercitamos tamanhas crueldades. Malignidade, aliás, que terminamos colando em um Deus que paradoxalmente aplaudimos como tolerante e compassivo. Triste sina a que herdamos: viver vestidos por essa  estúpida couraça de sepulcros caiados.
Salomão é como é porque é o que é. Que diferença para os humanos que são ou não são pela medida do que querem fazer parecer, empurrados pela vaidade, pela ambição, pela frivolidade e pela hipocrisia! Nunca vi Salomão embriagado pela sedução da pompa dos carros grã-finos, de máquinas possantes e de desenhos arrojados, nem preocupado com roupas e adereços enfeitados por marcas celebradas ou triunfantes pelo modismo. Se brincar muito mais escolhidos pelo preço que pela beleza ou pela qualidade. Vá ver que os de fora nem se dão conta desse verniz que tão logo escama e some, deixando nua a verdade malogradamente dissimulada.
Mais uma vez Salomão está certo. Pelo que sinto (e é difícil tirar-me isso da cabeça) ele não vive com a mente inundada por leseiras, por inutilidades. Tem seu prato de comida, sua tigela com água fresca, sua bandeja sanitária, sua caixa de papelão para se internar e cochilar, uma esquina porta, uma perna de gente, de mesa ou de cadeira para aqui e ali se esfregar e algum colo onde vez por outra pode se aquecer e ganhar um dengo. É o que lhe basta. 
Muito menos compete pelo lugar mais erguido no pódio da opulência e do mando. Sua pele parece camurça. Mas é tão só porque foi esta a que a natureza lhe deu de mão beijada. Seu caminhar é elegante, como se andasse sobre sapatos altos. Mas anda como anda porque é de ser assim por causa das almofadas que traz de nascença no verso das patas. Não precisa ensaiar maneiras e gestos. Também não necessita encapotar insegurança de qualquer tipo com ares de estudada bravura ou genialidade, nem a soberba com odores de seráfica humildade. Não é o falar, mas o agir, o que faz de cada um o que cada um na verdade é. Ninguém se engane: o modo exterior de ser não é vassalo do que se é de verdade. A cara não é retrato do coração e muito menos da mente.
Salomão (confio que nem tão cedo) vai morrer como morreremos todos. Sem tirar nem pôr. Talvez até depois de mim. E nisso se converterá em um ex-vivente a cada dia mais esquecido, como vai acontecer com cada um de nós. Mas não deixará o rastro do egoísmo, da presunção e da vaidade sem razão de ser, borrões que muitas vezes até precipitarão o que esquecimento a que somos condenados.

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Dizem que bem conviver é uma arte. Não vou negar. Mas sigo achando que bem conviver não dispensa um trato com a nossa própria natureza. Pelo menos pelo que Salomão me ensina e pelo que os animais, em geral, podem a todos nos ensinar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Nem ninho nem cobras




NEM NINHO NEM COBRAS
- Um depoimento crítico sobre Ninho de cobras, de LÊDO IVO -

 Carlos Méro
                       
RESUMOEsse trabalho se propõe a um depoimento crítico sobre o romance Ninho de cobras, de Lêdo Ivo, reunindo elementos de relato e crônica. O sentido da escolha da cidade de Maceió para ambientação da trama e dos seus habitantes como modelos para a caracterização dos personagens. Ironia romântica e inter-relação entre memórias pessoais e registros históricos. Representação metafórica de qualquer outra cidade brasileira da década de 1940. A sátira como mecanismo de autodefesa e de justificação do exílio espontâneo do autor.
Palavras-chave: Ninho de cobras. Maceió. Realidade e ficção. Autodefesa. Auto-exílio.

ABSTRACT: It is proposed, with this work, a critical statement about the Lêdo Ivo’s book Snake’s nest, bringing together elements of story and chronic.  The reason of the choice of the city of Maceió for setting the plot and its inhabitants as model  for the creation of characters. Romantic irony and interrelationship between personal and historical memories. Metaphoric representation of any other Brazilian city of the 1940s. Satire as self-defense mechanism and justification of spontaneous author's exile.
Keywords: Snakes’nest (Ninho de cobras. Maceió. Fact or fiction. Self-defense. Self-exile.

RÉSUMÉ: Ce travail vise à mettre en evidence une reflexion critique sur le roman Nid de serpents (Ninho de cobras), de Lêdo Ivo, réunissant des éléments de l’histoire et chronique. Les motifs du choix de Maceió comme toile de fond de l'intrigue, aussi bien ses habitants, en tant que modèles pour la caractérisation des personnages. L’ironie romantique et l'interrelation entre les souvenirs personnels de l'auteur et faits historiques. Représentation métaphorique de n’importe quelle autre ville brésilienne des années 1940. La satire comme un mécanisme d'auto-défense et de justification de l'exil spontanné de l'auteur
Mots-clés: Nid de serpents (Ninho de cobras). Réalité et fiction. Auto-défense. Auto-exil.

     1. A COR E O SABOR DAS ALAGOAS

Ao me escrever, em 26 de abril de 2005, sobre os contos que reuni em O Beco das Sete Facadas e outras estórias alucinadas (2004)disse-me Lêdo Ivo, referindo-se ao nosso compartilhado berço alagoano: Muito apreciei suas pequenas histórias singulares, escritas numa língua viva e irônica, e que guardam a cor e o sabor da nossa querida terra natal”.
O que já bem revela o chamego que tinha ele com o seu chão original, notadamente com Maceió. Encanto, aliás, que está abundantemente testificado em sua vasta obra poética. Cabe ouvi-lo:

Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
Minha Pátria (2004, p. 1.027)

Veneração que é reafirmada em Minha terra, Fronteira seca, Passo de Camaragibe, Jaraguá, Nossa Senhora das Correntes, Porto Real do Colégio, A guerra interminável, Planta de Maceió, O trem com sede, Emblema de estaleiro, Os anjos da Igreja do Rosário e Pajuçara (2003, ps. 527, 529, 539, 539, 540, 542, 543 e 546). Neles não só revelado o profundo afeto de Lêdo IVO por por Maceió, mas sim por Alagoas como um todo, quando canta as cidades do Penedo, de Porto Calvo, de Porto de Pedras, de São Miguel dos Campos, de Porto Real do Colégio...
Daí por que me ser difícil acreditar que tivesse ele, ao escrever Ninho de cobras, a intenção pura e simples de infamar Alagoas e os alagoanos. Até porque não faria sentido, considerando-se o contexto de sua abundante produção literária. E é por isso mesmo que prefiro enxergar que tenha tomado Maceió apenas alegoricamente, como referencial, portanto, para a representação de qualquer núcleo urbano brasileiro naqueles tempos. No que recolho, no particular, a ótica de Antonio Olinto (IVO, 1973).
Com efeito, a obra de Ivo, seja a ficcional, seja a poética, segundo também adverte Ivan Junqueira, comporta uma iterada expressão do ambiente nordestino em que ele nasceu e cresceu, “cujas mais remotas raízes nos remetem ao sangue que corria nas veias dos índios caetés.” (IVO, 2004, p. 27). Inclusive quando, no primeiro capítulo de Ninho de cobras, conta as desventuras e a imolação de uma temerária raposa que, “não obstante admitir a sua imortalidade com a morna indiferença dos seres sem metafísica”, tivera a afoiteza de percorrer, numa certa noite abafada, as ruas de uma Maceió que até então era tida como cidade civilizada. (IVO, 2004, ps. 9-19)
Não consigo entender, portanto, como existam alagoanos que quiseram e querem estigmatizar o romance Ninho de cobras, quando o rotulam como o “obra maldita, eis que nela só querem encontrar uma disposição (que adivinham proposital e abusiva) de não mais do que insultar Maceió e os seus viventes. Alguns inconformados explodindo em indignações furiosas e incisivamente vomitadas. Outros grunhindo resmungos mal disfarçados. Outros mais ruminando reprovações a custo engolidas mas ainda assim mal digeridas e de alguma forma delatadas. O que não exclui aqueles que, curiosamente, dão-se a certos deleites miúdos com o que decifram como ferroadas do narrador da trama (e por trás dele o próprio autor) a indivíduos xingados como “aranhas e lacraias que se escondem sob as camas “ (1980, p. 72). Mesmo porque tais censores esforçam-se em identificar, aqui e ali, alfinetadas diretas em pessoas reais que estariam disfarçadas pelo arranjo ficcional ou mesmo textualmente identificadas.
 Admitir a pretensa disposição simplesmente difamatória que teria inspirado Lêdo Ivo, pelo menos ao meu ver,  reclamaria também se aceitasse que estivesse ele, quando produziu o relato, a padecer de flagrante dissonância cognitiva. É que só se estivesse experimentando contemporâneos e antagônicos sentimentos de devoção e de repulsa à terra natal, na verdade, poder-se-ia compreender tal comportamento contraditório: culto fervoroso, profuso, quase litúrgico, eloquentemente confessado em sua imensa obra poética; repulsa vulcânica, incisiva e acidamente declarada naquela peça ficcional.
Ter-se-ia um clone da sonsa e falante raposa de Esopo? Seria o caso de um ardiloso desdenho de quem quer dissimular o desejo de comprar, o que remete a um conhecido adágio lusitano? Ou seria mais razoável abraçar a assertiva já lembrada de Antonio Olinto (IVO, 1973)? O próprio narrador de Ninho de cobras, ao cuidar do como a raposa refletira sobre a morte, é claro ao dizer que a encarava como: “uma ficção ou um ponto de referência”. (IVO, 1980, p. 18). Não teria Ivo também invocado Maceió e os seus habitantes como meros pontos de referência?
É nisso que quero acredito. Mais do que isso, porém, embora reconheça a rispidez do discurso de que se valeu Ivo, como um expediente, ainda que para alguns desmoderado e um tanto insólito ou até rude, de tentar despertar os alagoanos que se obstinavam em continuar “colados às ruas, ao barulho do mar, aos degraus rangentes que levavam aos lupanares, amando (...) o calor daquela paisagem como as cobras amam os seus ninhos de pedra “ (1980, p. 92). E assim abrir-lhes os olhos para a penúria de oportunidades e para a estagnação a que os condenava uma Maceió apática, provinciana. Tanto pior aqueles mais talentosos e aptos a voos que ali findavam impraticáveis, como se a cidade fosse movida por uma ciumeira castradora e desumana. 
Confira-se:

Um galalau louvava o suicida:
- Era um rapaz inteligente. Podia ter ido embora de Maceió, feito uma carreira lá fora.
Além das dunas estavam, no mar imenso, os portalós dos navios. Mas quem partiria?
- Maceió é um grande cemitério. No fundo, todos nós já estamos enterrados. (1980, p. 91)

Sabe-se que o próprio Ivo foi um emigrante. Ainda adolescente mudou-se para o Recife e três anos mais tarde para o Rio de Janeiro, onde definitivamente plantou raízes. E foi lá fora que conseguiu finalmente se afirmar como jornalista, como poeta, como ensaísta e como romancista, vindo a ver as suas obras aplaudidas, traduzidas e publicadas pelo mundo afora, chegando a conquistar um assento na Academia Brasileira de Letras. Daí, talvez, a amarga consciência de que foi a carência de expectativas que o forçou ao desterro, mais tarde somada ao fardo do sobrevindo banzo instilado pela distância do seu mundo de infância e de juventude.
Uma pobreza da cidade, portanto, quanto à oferta de oportunidades, o que pesava como uma âncora que a todos sustinha encalhados. O que levou Maceió a ser vista pelo narrador como “um grande cemitério” (1980, p. 91), onde terminavam sepultados todos aqueles que se resignavam a não arredar os pés de lá. Resistência do que teria culpa aquela natureza pródiga que os embriagava, a ponto de nem deixá-los enxergar os portalós dos navios que, “além das dunas”, os convidavam a partir para outras terras, para uma “carreira lá fora”, para uma nova vida, enfim (1980, p. 91). Fuga ou mera partida que corresponderia à receita a que ele mesmo teve de se submeter, sem que pudesse, mais tarde, negar as cicatrizes emocionais que disso lhe advieram.
Lê-se em Promontório: “É a esse lugar que retorno/ quando a chuva cai em Maceió e derruba as folhas/ dos cajueiros floridos (...) longe de vós serei um exilado”. ( 2004, ps. 890-891)
Ou ainda em Soneto à pátria: "teu espinho distante/ mais dói na minha mão inútil e gelada". (2004, p. 914)
Por detrás, destarte, da ironia romântica que aliás é traço recorrente na prosa e na poesia de Lêdo Ivo, o que se poderia descobrir em Ninho de cobras, mais do que a astúcia e a dissimulação da raposa de Esopo, seria a voz de um ferrenho e lúcido rebelde contra um comodismo que andaria a arranjar pretexto para justificar a falta de iniciativa e justificar a inércia dos seus conterrâneos. Ainda que para tanto se valha o narrador, e através dele o próprio Ivo, de argumentos enérgicos e talvez cruéis. Do modo de quem não vê outro jeito que não seja o de arriscar um choque psíquico que, apto a desencadear uma fadiga de combate, seja a derradeira meizinha para dar um sacolejo e despertar do marasmo.
Assim como se pretendesse dizer: - Acordem! Enquanto ficarem sepultados nessa necrópole provinciana vocês não terão nenhuma perspectiva de realizações pessoais.
Só poderia dar no que deu: um desconforto nativo muitas vezes transbordado em acres repulsões. Em uns tantos não mais do que estimulados pelo constrangimento de se verem agregados em um contexto ultrajante.
Aquele texto da mensagem que me foi escrita por Lêdo Ivo fez-me reler Ninho de cobras e tentar refletir, com ensaiada isenção, sobre o seu conteúdo. E ao fazê-lo veio a convicção quanto à insubsistência do julgamento apressado que não raro tem merecido de uns tantos alagoanos. Daí a minha pretensão de tentar demonstrar que tal levante, posto como possivelmente calçado no açodamento e até no preconceito e na intolerância, expõe-se muito mais emocional e abusivo que a alegada fereza que se quer combater no Lêdo Ivo de Ninho de cobras.


          2.    O ESTRATAGEMA DAS OCULTAÇÕES

Bem sabia Lêdo Ivo dos cenhos franzidos e dos disse me disse que, lá para as bandas de Maceió, foram desatados por seu romance Ninho de cobras – Uma história mal contada (1980).
E tudo isso porque alguns alagoanos, logo concidadãos de Lêdo Ivo, botaram na cabeça que ele dissimulou, no ventre da sua narrativa, doridas mágoas e explícitas bordoadas em alagoanos que, ao seu ver, seriam verdadeiras serpentes conchegadas nas ruas e nas praças, nas casas de comércio e nas repartições públicas, nas mansões, nas mansardas e nos pardieiros, nas rodas políticas, no Palácio Velho e no Palácio dos Martírios, nos bares e nos bordéis de Maceió.
Ele próprio tateou dar um basta em tais especulações, garantindo que mais não seriam que odores de conclusões apressadas e venenosas. Ou até estocadas descabidas de manhosos intriguistas. O que poderia encaminhar para não mais do que suores de manhas de arengueiros acoutados em antros de linguarudos.
Teria certa vez Lêdo Ivo, de fato, ao ser entrevistado pelo Jornal Gazeta de Alagoas, afirmado com todas as letras:

Alguns que não leram o livro pensaram que eu queria afirmar que Maceió era um ninho de cobras quando, na verdade, a história é a história dos alagoanos que não emigraram e amam Maceió. Os que amam Maceió como as cobras amam seus ninhos de pedra. É essa aderência da criatura viva à paisagem. (LESSA, 2014)

Que não foi sincero, que deixou tudo na mesma, que não convenceu... Eis o que dizem os que o censuram. Argumentam que ao dizer ter cuidado de histórias “de alagoanos que não emigraram e amam Maceió (...) como as cobras amam seus ninhos de pedra “, só por isso, no fim das contas, já teria etiquetado Maceió como uma toca pedregosa e abrigo de víboras. E vão atrás de diversas passagens que, segundo entendem, dariam lastro à certeza quanto à intencional exposição de reais ou urdidas maleitas nativas ou até quanto à deliberada difamação da sua cidade-matriz e da sua gente. Assim como se ele, a exemplo da raposa cujos dissabores inauguram o relato, estivesse “descendo contra a cidade  (1980, p. 9). Só que, diferentemente da canídea, com humanos e explícitos intentos anavalhados.
Pinçam e recordam os ressentidos, após garimpo que só se pode crer levado por uma não disfarçável predisposição, passagens que elegem como disso delatoras:

E as janelas fechadas escondiam o amor e o ódio, a expiação e o terror, o adultério e a sodomia. E, dia e noite, os relógios marcavam o fluir do tédio e da espera insensata. (1980, p. 12). w Durante minutos esteve escutando a conversa, fariscando o estraçoar de vidas e reputações, o desfiar de bandalheiras e ordinarices (1980, p. 49).

Ninguém tem dúvida de que Lêdo Ivo era um incorrigível cultor da ironia que, não raro, descambava em lambadas certeiras e bravias. Nem que esse gosto crônico findou agudizado em Ninho de cobras. Dir-se-ia que teria isso vindo do seu modo de ser recolhido, contemplativo e convencidamente severo com as mesquinharias que desumanizam os humanos. E no caso concreto? Teria sido isso ou teria resultado do banzo do emigrante que não desenterrara as suas raízes do chão natal? Ou resultara de um estranho remorso instilado pelo desgosto de se ter espontaneamente exilado, um drama interior calçado no conflito entre o ser e o dever-ser?
Por isso ou por aquilo não seria de se estranhar que fosse tão áspero ao radiografar a gente de Maceió. Mas da Maceió, pode-se concluir, apenas representada alegoricamente, assim como se vista como um espelho em que estaria refletida a imagem de qualquer outra cidade provinciana, ao menos no Brasil daqueles tempos idos e tumultuados.
Era dele cair de pau, no dizer de Ivan Junqueira com “uma mordacidade  cáustica e rascante “sempre que se detinha na análise dos “aspectos mais hipócritas e escorregadios da vida em sociedade “. (2004, p. 35).
Poder-se-ia compreender, ademais, que tivesse ele ido catar modelos pontuais. E que justo o fizesse em Maceió, cidade onde nascera e crescera, a tudo enxergando, memorizando e valorando ao seu feito. O inadmissível seria esperar que a sua ficção tivesse vindo do nada, isto é, fruído de uma inspiração vadia, descomprometida com a vida.
Que Lêdo Ivo não tenha sido autêntico ao negar que quisera ver e mostrar Maceió como um ninho de cobras e/ou rotular alguns alagoanos como víboras... Pouco importa. Ao menos quando se leva em conta a densidade com que revelou um cenário social e humano e universal e inquietante, a partir de uma abordagem particular. Mas também a estatura da obra e o seu valor estilístico, singularizando-se, ademais, pelo ritmo alucinante da trama e pela conjugação dos realismos social e psicológico de que se revela penetrada. Teria tomado uma cidade e a sua gente, pois, para representar o mundo brasileiro daqueles tempo. Aliás, no enxergar de Franklin de Oliveira, mediante uma: “prosa alerta para o registro dos mais imperceptíveis movimentos da vida “. (IVO, 1980, segunda orelha).
 Ridículo seria exigir que ele, na construção da trama e na produção do texto, desfizesse-se de experiências próprias ou alheias, logo pessoalmente vivenciadas ou sabidas por ouvir dizer. Seria querer que ele se negasse a si mesmo (WESLAND, 1950). O que nem mesmo conseguiu Dostoiévski ao escrever Crime e Castigo, ou García Márquez em suas fabulações mais delirantes.
Inconsequente, portanto, perquirir se esteve estimulado por rancores ou por remorsos acumulados que teriam desatado a ótica pejorativa que pretendera dissimular. Fosse esse o caso e certamente se valera mal do que chama “estratagema das ocultações” (1980, p. 77). Por outro lado, seria abandonar a compreensão da obra, como unidade real de criação literária, para se vasculhar o mundo intestino do autor e surpreender eventual disposição interior ao produzi-la, perdendo-se o leitor em um emaranhado subjetivo e vocacionado a adivinhações, sem qualquer utilidade prática.
Mais razoável, destarte, absorver a lição já anteriormente lembrada e trazida pela lupa decodificadora de Antonio Olinto, para quem Maceió fora simbolicamente tomada para representar qualquer outra cidade brasileira de então. E explica: “porque, na realidade, o que o romance mostra é o terror do mundo de agora – terror que aparece no berro e/ou se move no silêncio, terror sob todas as formas, principalmente as menos esperadas” (1973). Enfim, uma trama romanesca trabalhada por sobre a transfiguração do real e fundeada na experiência coada pela imaginação (MOISÉS, 2015).
A cidade de Maceió, por conseguinte, não é mais do que aproveitada como amostra, como referência. E se a preferiu para ambientar a trama, pelo que também exala da manifestação de Olinto (1973), deve-se ao fato de ser a sua cidade natal, pelo que aquela mais minudentemente conhecida, por dentro e por fora, pelo autor de Ninho de cobras.  

3.  UMA CORREIÇÃO DE FORMIGAS

“ Em Maceió, só Deus perdoa “ - proclama o narrador de Ninho de cobras. (1980, p. 151)
Sentença que pode ser realçada para entrouxar assertivas recorrentes no ventre da narração. Todas elas pontuais quanto aos inúmeros futriqueiros que se reuniam nas portas das lojas, no Bar Colombo ou em torno do Relógio Oficial. Pessoas de línguas soltas que viam o dia a passar “como uma correição de formigas (1980, p. 26). Intrigantes que, intoxicados pela maledicência, iam levando a vida enquanto “estracinhavam reputações” (1980, p. 79).
Eram, aliás, tenazes no cumprimento de tal detestável ofício que, podia-se imaginar, quase o exerciam como que cumprindo uma missão divina. Daí por que só descansavam as gargantas:

(...) quando as luzes das casas se apagavam, sumiam na escuridão as fachadas degradadas que guardavam ainda uns toques e longes da grandeza perdida, e os degraus das escadas dos prostíbulos deixavam de ranger “. (1980, p. 112).

E nisso, pelo que é contado com todas as letras, nem nada nem ninguém era poupado: mancebias, incestos, afogamentos, suicídios, homicídios a soldo, bandalheiras e "ordinarices" de tudo o que é tipo, meretrizes e seus perfumes, noitadas homéricas nos puteiros, fornicações no Banheiro do Cego e surubas no Catolé ou em alcovas mais ou menos mal-afamadas, além de aninhos homossexuais (1980, ps. 49-50). E nos confessionários, sob os olhares de “anjos gordos e tortos”, as “ histórias de masturbações juvenis e cobiças e adultérios. (1980, p. 91)
Ou ainda: “ Em Alagoas, só os tesouros escondidos pelos holandeses não eram descobertos. Do resto, sabia-se, fosse o nome de um ganhador da loteria ou um incesto. (1980, p. 32).
Uma comunidade, pois, que contava com inúmeros figurantes de índoles censuráveis ou no mínimo sombrias. Embora estivessem aqueles tramelas a viver envolvidos por um cenário urbano a que eles próprios não se cansavam de efusivamente gabar, seja por seu encanto paisagístico, seja por uns tantos outros atributos não tão edificantes assim:

É uma paisagem admirável. No Nordeste não há iguais. E pessoas viajadas, que conhecem o estrangeiro, garantem que temos as mais belas praias do mundo. Veja que céu azul. (1980, p. 74). w (...) assegurava que Alagoas possuía a melhor cachaça do mundo. Nenhuma bebida, em toda a Terra, era comparável à azuladinha de Coruripe, a qual pedia tira-gostos nobres como boca de uçá ou fatia de caju.(1980, p. 110) w Com os olhos acesos confidenciou-lhe (...) que Alagoas possuía as melhores putas do Brasil. (1980, p. 110) w Só Maceió e Paris têm sururu. (1980, p. 110)

Mas não esbarrava nisso tal culto passional dos nativos que não haviam emigrado, pois que iam ao ponto, desde que inspirados pela “azuladinha fabricada por Paulo Rolemberg, no Engenho Coruripe”, de canonizar Alagoas como “terra ditosa, merecedora da inveja universal”.  (1980, p. 104)Até a receita do uísque com água de coco, por exemplo, diziam que havia sido inventada em Maceió, durante uma noitada de esbórnia no puteiro da Dina (1980, p. 106).
Havia ainda letrados e menos iluminados que, com o fim de louvar as Alagoas, procuravam glorificar fatos e homens da história local. Domingos Fernandes Calabar, para eles, teria sido “ um precursor do nosso nacionalismo (1980, p. 106). A República somente teria sido proclamada e consolidada, o que se deu sobre as ruínas do Império do Brasil, graças a dois alagoanos: o  “ ínclito ” marechal Deodoro da Fonseca” e o “ brioso “ general Floriano Peixoto (1980, p. 110 e 151).
Manuel Deodoro que, na hoje distante manhã de 15 de novembro de 1889contrariou as expectativas de todos e de cada um, dado que se acreditava fosse leal e grato ao Imperador Pedro II, tido e havido como seu benfeitor. Naquele dia, porém, Deodoro fora visto na Praça da Aclamação, no Rio de Janeiro, montado no seu cavalo e a levantar a espada contra o Imperador e a derrubar o Império (1980, p. 151). Sem Floriano, contudo, a República não teria vingado. Fora ele quem, com altivez (ou arrogância) e mão de ferro, esmagara um monte de revoltas e insurreições de saudosistas da Coroa. Teria inclusive se indignado quando fora cientificado de que forças britânicas desembarcariam no Rio de Janeiro, para proteger os ingleses que lá estavam. Bufando e espumando pelos cantos da boca Floriano não amarelou. Perguntado como haveria de receber os saxões, o “patriota fervoroso” teria sido enfático: “ À bala “. (1980, p. 151).
Eventos e heróis cantados em prosa e verso, é verdade, desde o “alvorejar republicano”. Apologia “que ainda hoje enche de orgulho as crianças dos grupos escolares, e seixeiros e estroinas de marca maior que passam as tardes nos bordéis (...) (1980, p. 151).  
Não estavam os intrépidos, porém, imunes a certos olhares atravessados. Dir-se-ia que coisa de letrados: historiadores, poetas e até o editor de um prestigiado periódico local. - Uns pedantes! - haveria quem caçoasse. Os próprios contestadores, entretanto, viam-se como mentes que não deixavam que a ilusão da mentira tomasse corpo de verdade (LLOSA, 2012, p. 24): Calabar desertara das fileiras lusitanas, é certo, mas o fizera para se conluiar com invasores holandeses, em tempos em que o Brasil ainda era colônia de Portugal e o território que hoje pertence a Alagoas não passava de fatia daquele da Capitania de Pernambuco (1980, p. 105); Deodoro, o “ínclito marechal “, leva o onisciente narrador a questionar se a sua conduta não teria levado “Pedro II a rever, em sua velhice soneteira e amargurada de rei no exílio, o seu conceito sobre a fidalguia do homem alagoano “(1980, p. 151); Floriano, com todo o seu apregoado patriotismo impetuoso, também leva o narrador a se interrogar se Deodoro, mais tarde, não teria sido levado “a rever o seu conceito sobre os conterrâneos “. (1980, p. 151).
Estaria um iconoclasta escondido por trás do contador da história? Ou nele somente estaria um livre pensador, nutrido por uma neutralidade não medida e sempre pronto a ver os fatos e as condutas dos homens com lúcida frieza, sem se deixar afetar por sentimentalismos piegas e impulsos hipócritas?
Afinal, o que mostra a obra é uma comunidade em que presente um monte de pessoas de índoles nebulosas, vez por outra meras vozes sopradas por odiosos preconceitos. Todas estas e todas as demais, contudo, assentadas em um cenário urbano a que elas próprias, com derramada pabulagem, gabavam como paradisíaco e sem igual, em razão de um entorno paisagístico repleto de inebriantes belezas e de fartos encantos: o mar, o céu e todo um universo pleno de dádivas da natureza.  Para não falar de certas fortunas não tanto assim escoradas em unanimidades, a exemplo da decantada cachaçaem particular a azuladinha de Coruripe, e das mais apreciáveis putas que: “Não eram como as mulheres do mangue, nem tinham as galinhagens das fêmeas do Recife. Algo recatadas, só faziam ou só gostavam de fazer na frente (...)”. (1980, p. 110).
  Pelo visto e no frigir dos ovos um verdadeiro Éden redescoberto, embora assombrado pelas transgressões de multiplicados Adões e Evas.

  4. O PURGATÓRIO DAS APARÊNCIAS

  Instigante e vário é o elenco de personagens apanhados em Ninho de cobras: aqui uma raposa (se é que pode ser tomada como tal) que, numa certa madrugada, atrevera-se a fazer um passeio pelo centro de Maceió, o que no mínimo abalara um conceito de cidade civilizada (1980, p. 98); adiante um agente de companhia de aviação que, supliciado por grilhões metafísicos e convivenciais, via-se consumido pela “seca e opaca desolação do mundo (1980, p. 54) e oprimido pela temor de que o difamassem por um desfalque que tinha certeza de que não praticara (1980, ps. 51-52); depois uma puta de “certa ética profissional” (1980, p. 60) que, tendo passado pelas mãos de todo o tipo de homem, entre eles um guarda-freios, um tangerino de boiada e um profeta cuja mania era “ tirar cabaço “ (1980, p. 89), ainda guardava suficiente orgulho e firmeza para refugar certos tipos de penetração: “ Fora do organismo, nada “ (1980, p. 60); mais à frente um tal de Guabiraba que, mui embora “o mais ilustre dos facadistas”, era “achegado das maiores notabilidades de Alagoas, às quais tratava invariavelmente por você “ (1980, p. 101).
Mas não só eles, pois que também: uma freira que, flagelada por uma insônia impiedosa, varava as madrugadas pendurada em uma das janelas do Hospital São Vicente, tal e “qual uma sombra entre as sombras, no silêncio da antemanhã“, convencida de que ela, assim como todos seres do mundo, era “um animal prometido ao frio absoluto” (1980, p. 128); um facínora que, respondendo pelo vulgo Piolho de Onça, era “notoriamente vinculado ao Sindicato da Morte”, mas que acreditava que o “convívio com as altas personalidades de Alagoas – ou pelo menos com as pessoas ilustradas que usavam gravata e anéis” o “redimiam do dia a dia promíscuo e dos serviços confiados à sua pontaria ou ao seu gesto certeiro e impiedoso (1980, p. 108); um obeso e empavonado advogado, historiador e professor de Direito, para quem a “gordura infundia confiança e respeito aos clientes“, convicto de que: “ Um bom advogado deve ser gordo“ (1980, p. 27).
Além deles um escrevinhador de bilhetes apócrifos e pertinaz propagador das intrigas, injúrias, difamações e calúnias que varavam a cidade. Era como se ao abrir o gibi, protegido pelo anonimato, exorcizasse os fantasmas que o atordoavam desde a infância, divertindo-se com a azucrinação que impunha às suas vítimas. E não tinha cerimônia na hora de escolher os destinatários das suas notas venenosas: um dia a mulher de Alexandre Viana, o agente da empresa de aviação que viria a se suicidar, quanto a estar ele “amancebado com uma rapariga chamada Enaura”, para quem montara casa em Jaraguá (1980, p. 41-42); outro dia algum homem de negócios, quanto a estar o seu gerente “viciado no pôquer” (1980, p. 79); mais tarde o bispo, quanto a um “ certo cônego que dormia com a empregada  (1980, p. 74), só vacilando o maledicente quanto ao tratamento cerimonial a ser dado ao destinatário. 
Ainda se poderia falar de Ramona, “o pederasta mais famoso da cidade “  (1980, p. 48). Mas também: do anão que era “comerciante respeitado em toda a cidade, banqueiro do jogo do bicho (...) possuidor de grandes depósitos bancários e amigo do interventor e do chefe de polícia “ (1980, p. 69); da mulher que, interna como indigente no Hospital São Vicente, “trazia no rosto, no pescoço e nos braços (e certamente no resto do corpo oculto por uma bata suja), pequenas manchas negras “ (1980, p. 57).
E é de chamar a atenção o fato de que todos ou quase todos edificavam as suas vidas sobre miragens ou mentiras mais ou menos cabeludas. A começar por Serafim Gonçalves, o pançudo e sábio advogado, historiador e professor de Direito. Ele, todavia, não era apenas singular por seu biótipo hipopotâmico. Mais do que isso, atribuía-se um brilho literário de procedência quando pouco duvidosa. Ainda assim deixara-se tão intensamente intoxicar pela própria fantasia, que chegava a ter certeza de que haveria de ser conhecido, no cocuruto da República, como “ o Joaquim Nabuco de Alagoas “ (1980, p. 31).
Quanto à sua compleição física e reflexos em sua psique tem-se pormenorizada descrição:

(...) o professor Serafim Gonçalves se firmara, perante seus contemporâneos, como o advogado mais gordo de Maceió – maneira restritiva de dizer que ele era o homem mais gordo do Estado. (1980, p. 21). w Alto, gordo, vermelhaço, o ventre glorioso, sentia-se amplamente credenciado para representar, do ponto de vista físico, o homem alagoano – um homem forte, não franzino ou opilado (1980, p. 23). w E a gordura, judiciosa e triunfante, lhe trouxe uma consideração que, geralmente, se nega aos magros, por mais notáveis que estes sejam. (1980, p. 26). w A sua banca de advocacia era uma das mais prósperas do Estado, possivelmente a sua gordura infundia confiança e respeito aos clientes (1980, p. 27). w O professor Serafim Gonçalves sentia-se, assim, alto e branco, numa terra de homens morenos, acaboclados e mulatos, sem falar nos pardavascos e negros. Era gordo, alto e claro – três coisas que o envaideciam. (1980, p. 22). w Sentia-se um pouco holandês – na cor da pele, nos olhos cor de mel, nos bastos cabelos castanhos tirantes a louro (...). (1980, p. 24). w E, no fundo de si mesmo, o professor Serafim Gonçalves se sentia um pouco ariano (1980, p. 28).

Já quanto ao seu conteúdo jurídico e literário, o sarcasmo: “Além de seus conhecimentos jurídicos, que haveriam de fazer dele um dos advogados mais respeitados de Alagoas, possuía algumas tintas literárias. Numa revista estudantil do Recife escrevera dois artigos, um sobre o Barão de Penedo (...) e outro sobre o poeta alagoano Guimarães Passos (...). “ (1980, p. 23).
Ele, Serafim Gonçalves, que, “ (...) no Recife, conhecera jornalistas e escritores e uma tarde tomara cerveja com um grupo em que se dissertava sobre a literatura inglesa. Tinha, portanto, traquejo intelectual. Até porque, tendo por um tempo convivido com professores e estudantes, fora levado a comprar alguns livros e ler revistas e jornais. (...) “. Por isso mesmo “era salteado pela certeza de que essas convivências lhe tinham garantido certo pecúlio cultural para ser utilizado a vida inteira. “ (1980, p. 23).
A tal bagagem intelectual ainda se somavam a calvície, que era como se “evocasse as noites de meditação e estudo, consultando a jurisprudência” e uma biblioteca de livros encadernados, “o que parecia aumentar a autoridade dos volumes e conferir às estantes um ar de irrecusável nobreza” (1980, p. 29). Compreensível, pois, que se irrogasse dotado de bastante engenho e arte para escrever uma obra de mais de quinhentas páginas sobre a Invasão Holandesa na Capitania de Pernambuco. Nela demonstraria que não só contribuíram para a aventura batava os alegados fatores econômicos, mas também “os raciais, os políticos, os religiosos, os sexuais, até os alimentares “(1980, p. 105)
Indisfarçável, portanto, a jocosidade com que delineada a imagem do emproado Serafim Gonçalves. E assim a delação do mundo fantasioso em que se enquadrava, erguendo-se sobre um falacioso alicerce de aparências. Não satisfeito, ainda cuida o narrador, sem esconder o preconceito, ao nele grudar preferências homoafetivas. Conta, em um primeiro momento, que o presunçoso professor, quando chegava à Faculdade de Direito, fora atraído por um jovem louro e garboso marinheiro. E não só parou para admirá-lo, como “depois não sabia dizer quanto tempo durara a contemplação”, um tal “devaneio inconfessável” do qual só fora arrancado por um aluno que lhe trouxe a informação: “É um navio de guerra norte-americano que está no porto.” (1980, p. 33).

E durante a aula inteira, o professor Serafim Gonçalves mostrou-se distraído. As palavras fugiam-lhe. E seu pensamento desinquieto seguia o marinheiro desconhecido que, vindo de longes terras, se atravessara em seu caminho, perturbando-o. (1980, p. 34)

Depois, numa certa madrugada em que o professor se retirava de um frenético folguedo no lupanar da Dina, dera-se de frente com o mesmo marujo que tanto lhe enchera os olhos e incendiara os instintos.

Como se há muitos anos, talvez desde a infância, tivesse marcado aquele encontro, o professor Serafim Gonçalves se aproximou da aparição radiosa e imaculada. O marujo era belo, forte, louro. E iria partir no dia seguinte – segredo convertido em distância e esquecimento. “(1980, p. 117)

Diagnóstico ácido, sem dissimulação da caçoada, também despenca, justa ou injustamente, sobre o poeta que teria sido autor da obra Canções do Tédio e sobre o cidadão indigitado como Diretor da Faculdade de Direito: o primeiro quando, além de se afirmar que os seus versos deram testemunho da “adesão de Alagoas ao simbolismo francês “(1980, p. 102), ainda se põe pavulagem na sua boca: “Em meu sangue, rodopiam os moinhos da Holanda e florescem os vinhedos do Reno” (1980, p. 108); o segundo quando, além de ser depreciativamente qualificado como “letrudo”, seria dado a fanfarronices machistas, tendo um dia, ávido por se tributar  pretensas  façanhas donjuanescas, contou suposta aventura com “uma mulher, de olhos mouriscos e rosto de madona, que parecia alimentar-se com azeitonas de Atenas e velhos vinhos de França” (1980, p. 107).
Esse pertencimento ao “purgatório das aparências“ (1980, p. 44) não abandona os demais personagens ali mostrados: a raposa que, ao desafiar a crueldade dos homens, “julgava-se  imortal, não obstante admitir a sua imortalidade com a morna indiferença dos seres sem metafísica “ (1980, p. 17); Alexandre Viana, o suicida, que se deu fim acreditando que a morte faria “nascer uma ordem profunda da sinuosa desordem de sua vida e da existência em geral “ (1980, p. 52); a puta do roupão cor de vinho, ao ter por certo que só por vesti-lo já assumia  “uma certa qualificação social”de modo a fazê-la ombrear-se com “as madames que moravam nas belas casas do Farol e da Pajuçara” e que sem dúvida “possuíam roupões iguais “ (1980, p. 57); Guabiraba com a ilusão de que, ainda que facadista, haveria de algum dia poder dizer que o interventor “oferecera em sua honra uma panelada de goiamuns, temperada com pimenta rabo-de-macaco” (1980, p. 101); a freira que, apesar do seu piedoso compromisso cristão, não se libertava das inquietudes que lhe vinham da suspeita de que o Criador seria “um Deus terrível, que criara, ao mesmo tempo, o sono e a insônia, o navio e a tempestade, a caça e o caçador, a seca e o chuvoeiro, a raposa e o guarda que esmigalhara, com um cacete”, o seu focinho belo  e selvagem (1980, p. 134); Piolho de Onça, o implacável matador de aluguel, nutrido pela veleidade de que o só conviver com os notáveis haveria de absolvê-lo das suas malvadezas, garantindo-lhe notabilidade como homem de bem (1980, p. 108).
Mas não somente eles: Serafim Gonçalves, o poeta e o Diretor de Faculdade, todos embriagados pela jactância, estavam convictos de que seriam imortalizados pelo reconhecimento dos seus talentos prodigiosos; o redator de cartas anônimas plantado na falsa imagem de concidadão de existência pacata e isento de máculas originais ou derivadas; Ramona a simular que não era afetado pelos risos zombeteiros que o encalçavam, sempre que passava por algum grupo de homófobos autênticos ou dissimulados; o anão que se imaginava virar um “gigante” e ser convertido em um “animal trombejante “sempre que cavalgava a puta do roupão cor de vinho, eis que convencido de que a rameira era sincera quando gritava, aos quatro ventos, que era ele o fornicador com quem mais gozava (1980, p. 69); a mulher enferma que tinha o corpo coberto de pequenas manchas negras”ao fazer de conta que se esquecia da própria miséria de indigente, enquanto se entretinha com “a história de uma raposa morta, naquela manhã, no centro da cidade “ (1980, p. 57).
Voltando a Serafim Gonçalves, ao tardio poeta que arremedava os simbolistas gauleses e ao garanhão Diretor de Faculdade, bem poderão não ter existido, salvo no universo fantasioso do escritor. Nem mesmo Lígia, filha do velho coronel Tavares e esposa de Gonçalves, mulher “magra, fina, o corpo acusando-se em ossos e músculos”, que “ ressonava, abraçada ao travesseiro de macela “ (1980, p. 16).
Entretanto, bem podem ser caricaturas de pessoas reais que, de uma forma ou de outra, tenham dado mote para o desenho de tais personagens. O que não quer dizer que a criatura, no caso, seja a imagem fiel do paradigma. Afinal de contas, nem o vestido de noiva, em sendo modelado sobre um manequim, dispensa os ajustes finais no corpo da nubente que o haverá de trajar.
Por outro lado, mesmo que não tenham eles existido no mundo real, ou talvez o tenham mas não tivessem sido autenticamente reproduzidos, situações estão postas que bem retratam chagas sociais concretas e até hoje não saradas. Basta que se atente para a burocracia que já emperrava os serviços públicos, para a corrupção que por aqueles tempos já se fizera endêmica, para o entorpecimento, enfim, que sempre manteve a justiça em permanente madorna. A mesma manemolência judiciária que, ainda no século XIX, levara Rui Barbosa a verberar: “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta “ (2003, p. 53).
            São excertos quanto a tudo isso bem reveladores:

-    Se quer comer, tem que dizer o nome, seu puto. Explicaram-lhe (mas quem?) que nas requisições de comida, deveriam figurar, obrigatoriamente, os nomes dos beneficiários. Rigorosos mecanismos de controle eram acionados, para evitar que os alimentos fossem desviados por funcionários relapsos e corruptos. Os papéis, protocolizados, tramitavam por várias seções, recebendo, pareceres e carimbos, suscitando inspeções e sindicâncias. (...) Em muitos casos o processo demorava semanas, anos, talvez séculos, até ser despachado. (1980, p. 156) w O oficial-de-gabinete dizia: “O deputado Cansanção  trouxe da Europa uma caixa de conhaque para o governador”(1980, p. 31) w A mulher de um Desembargador mandara perguntar se ele não poderia arranjar-lhe alguns jornais cariocas (1980, 48) w Uma parte do dinheiro que lhe trazia o jogo-do-bicho era entregue às autoridades, talvez servisse para pagar aos desembargadores que distribuíam justiça ou às professoras que desasnavam crianças (1980, p. 97)

Em resumo, por conseguinte, um enredo que mistura verdades e mentiras, o real e o imaginário, o literal e o figurado. Ao repassar as versões desencontradas acerca do destino que teria sido dado à cama em que dormiram Pedro II e D. Teresa Cristina, quando estiveram em Maceió, anota o narrador que foi o futuro Barão de Jaraguá quem a projetara, mandara fazer e custeara. Por isso mesmo logo mais ganharia o título nobiliárquico, fruto de uma gratidão imperial. E conclui o relato, no particular, sentenciando que: “ verdade e mentira são, no fundo, farinha do mesmo saco, e a vida é baralha ou estrovenga “ (1980, p. 152).
  1.  JANELA FEDORENTA DOS HOMENS

O homem do balcão fora na verdade sequestrado pelos verdugos do Sindicato da Morte e estava jogado “onde não havia Deus – era jaula fedorenta dos homens “. O que nem a ele surpreendeu, pois já sabia que: “Mais cedo ou mais tarde o seu nome se faria claro e legível entre garranchos e carimbos, nódoas de tinta e rasuras nascidas de propinas e surdos conciliábulos “(1980, ps. 140-141)
É que até para se ser ou não enjaulado, como um leão de circo, a corrupção já existia, ou nunca havia deixado de existir. A mesma corrupção que hoje permanece a lambuzar os políticos e a espezinhar os contribuintes. Quer dizer: permanece a existir, embora tenha perdido o lugar mais alto no pódio disputado pelas costumeiros embustes que ultrajam a cidadania. A corrupção, de fato, hoje perdeu a medalha de ouro para o insultuoso cinismo dos corruptores e dos corrompidos, tendo de se contentar com a prata.
E nada essencialmente mudou, pois que apenas assumiu novas feições: naquele tempo era o deputado tal ou qual que presenteava o Governador, quem sabe em troca de simpatia e apoio político, com caixas de conhaque trazidas da Europa; era a mulher do Desembargador que usurpava o cargo do marido para explorar o agente da empresa aérea, sempre seduzida pelo gosto pelos privilégios, ainda que os mais pigmeus; era parte do dinheiro arrecadado pelo jogo do bicho apropriado pelos governantes, que o convertia em remunerações de magistrados que das bancadas condenavam as jogatinas e os banqueiros. Além de também usá-lo para pagar os professores que, em suas aulas, satanizavam os vícios.
Hoje, pelo que se fala, as propinas são dissimuladas por casas de campo, apartamentos no Brasil ou em Miami, depósitos misteriosos em bancos estrangeiros, relógios, gravatas, cinturões, sapatos, ternos e canetas de grife, férias no exterior com tudo pago, charutos cubanos e caixas com dúzias de garrafas de vinho de linhagem nobre, tudo mimoseado por empresas em troca de êxitos arranjados em licitações milionárias ou outras facilidades. Mas não é para menos, visto que  políticos e outros poderosos ressuscitaram a noção insolente de que a cidadania tem o dever de manter os luxos dos palácios em que se abrigam, bem como de suportar-lhes as ostentações no morar, no vestir, no comer, no beber e no lazer. E há aqueles que mesmo proprietários de imóveis residenciais recebem casas para morar, veículos (não raro dois ou três) para se locomoverem e até combustível. - “Somos nós que temos a caneta!” – debocham os favorecidos, de comum por eles mesmos.
O que, diga-se de passagem, não é novidade. Já com El-rei D. Sebastião, monarca lusitano no século XVI, cada Cavaleiro residente na Corte e assente no Livro das Moradias recebia teto para sob ele morar, dinheiro para se manter e quota de cevada para alimentar a montaria. 
Nos dias presentes a pilhagem das forças do Erário voltou a ser institucional, tão vasto é o universo de agentes públicos e políticos que, assumindo ares de baronetes, tomam o Estado de assalto. Mas é ainda pior a postura obscena que ostentam quando flagrados com a boca na botija. Chegam ao cúmulo da hipocrisia, até mesmo, de severamente degradar, sem o mínimo de decoro, tantos que não fazem nem a metade do que eles estão habituados a fazer. Mas é do suor do povo que continuam a arrancar o suporte para as suas extravagâncias. O mesmo povo de quem exigem respeito, ao ridículo argumento de que desnudá-los é arruinar as instituições.
Mas não seria de esperar diferente de elite de origem tão cruamente deplorada por Lêdo Ivo, quando, com frases de tensões dobradas, toma Alagoas como como referencial:

E esse cheiro, de passado e presente, esse secular e peganhento cheiro de açúcar estava entranhado nas pedras das ruas, nos retratos dos antepassados linhajudos que descendiam de salteadores e prostitutas degredados por el-rei de Portugal, (...) cheiro de açúcar que, apesar de sua impregnação imemorial e moageira, nem sempre conseguira adoçar a dureza e crueldade dos espíritos (...) (1980, ps. 83-84).

6. UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

     A prostituta do roupão cor de vinho, quando se faz a relatar como lhe correu a vida, decidiu-se por “não contar uma história linear, como às vezes conseguia ler nos jornais ou nos folhetins vendidos na Feira do Passarinho (...) mas uma história que começava em qualquer lugar e terminava em qualquer lugar, desurdida e fragmentária, e na qual o depois precedia o antes (...) Uma história mal contada, e toda embaralhada (...) ”. (1980, p. 61)
    Pois foi este o feitio que talvez tenha deliberadamente escolhido Lêdo Ivo, quando se pôs a escrever o Ninho de cobras. Isto é, compor e expor uma trama que se desnovela de forma segmentada e portanto não cativa a um rígido esquema calçado no binômio espaço-tempo. Uma retratação de instantâneos vivenciais autônomos, em que caso a caso radiografados os desafios da condição humana. Células dramáticas, afinal, que se vão alinhavando por sobre um  vaporoso trilho condutor que, atento a uma simbólica simbiose entre a cidade e os seus viventes, finda por harmonizá-las.
       Disso tudo é já revelador, aliás, o subtítulo que Ivo atribuiu a sua obra: Uma história mal contada. Não porque a admitisse infectada por pecados redacionais, estruturais ou estilísticos, mas sim pelo modo peculiar como os eventos seriam e foram contados, compondo-se o  todo pela colagem de flagrantes pontuais. Tal e qual um rosário que, como não poderia deixar de ser, só se faz inteiro pelo conjunto das suas contas.
       Um romance, enfim, que deixou de lado o modelo épico que foi marca do novo realismo, eis que sacrifica o representar pelo realce ao como representar. (MATOS, 2009).
       Nisso a razão, muito provavelmente, de se ter valido Ivo da estratégia de até caricaturar viventes reais, chegando mesmo a identificá-los. O que não é o fim do mundo, pois que caricaturas, sejam gráficas ou literárias, não levam o condão de refazer o representado, por mais irônicas e hilárias que sejam. Charles Darwin não se transformou em um símio, nem se viu desfigurado como cientista iluminado, só por só haver a revista Hornet, nos idos de 1871, publicado caricatura em que ele é mostrado com características físicas de um macaco.
      Mais ou menos como graficamente fizeram com Darwin, portanto, o que fez Lêdo Ivo foi tão só literariamente retratá-los com ênfase para certas singularidades físicas, intelectuais, sociais ou morais, reais ou imaginárias, sem nenhum compromisso de ao ressaltá-las fazê-las definitivas e irremovíveis. O relevante seria fixar tipos e não pessoas determinadas. Muito menos provocativamente estigmatizar quem que que fosse.
        Ademais, não foi Lêdo Ivo quem inventou a retratação literária de indivíduos de carne e osso, com toques irônicos ou não. A literatura sempre esteve e permanece cheia de obras que assumem o caráter de relato-reportagem ou de biografia romanceada. Exemplos recentes das primeiras estão com A luta (The fight), de Norman Mailer, e Honra teu pai (Honor thy father), de Gay Talese. Quanto aos romances biográficos, só no Brasil poderíamos apontar Edgar Allan Poe – O mago do terror, bem como Kafka e a marca do corvo, ambos de Jeanette Rozsas. 
         Por outro lado, atestar certas tendências ou marcas pouco ou nada elogiáveis desta ou daquela comunidade, como se veria em  Ninho de Cobras, também não dá ineditismo a Lêdo Ivo. VARGAS LLOSA, em Cinco Esquinas, conta os limenhos como “os maiores fofoqueiros que o universo pariu (...)” (2016, pág. 126). HUGO MÃE, em A máquina de fazer espanhóis, ao tecer trama ambientada em Portugal, não mede palavras: “  (...) já dos lusíadas nos vem a inveja, e não se mudam essas coisas do sangue de um povo (...)” (2016, pág. 105). E nem por isso tiveram os seus romances arrenegados.
         Se ao buscar exemplos apropriou-se Ivo de modelos concretos, a partir de pessoas reais, isso fica por conta da frenética busca da verossimilhança, de forma a dar perfis mais verdadeiros aos personagens e assegurar idoneidade à representação. Afinal de contas, o que perseguia era traçar um perfil exato das aglomerações humanas do seu tempo, infectadas pela frivolidade, pelo egoísmo, pela farsa e pela antropofagia moral.  
         Se optou por impactar, não inaugurou moda alguma. As religiões, desde os começos dos tempos, valem-se da ameaça da danação eterna como argumento de autoridade. O sempiterno judaico-cristão, desde que convencido do quão difícil era convencer o homem a lhe respeitar os comandos, não teve nenhum sobrosso para exigir de Abraão que montasse uma fogueira no alto do Monte Moriá e nela assasse seu filho Isaque. Aliás, nem poupou o próprio filho unigênito, pois que não só o condenou à infâmia do Calvário, como se negou a ouvi-lo, bem no momento da culminância da agonia, quando rogou fosse anistiado.
         Quando muito, o que se poderia entrever, na raiz de Ninho de cobras, seria um aflito esforço de autodefesa. Um emigrado que, sufocado pela nostalgia do desterro e muito mais pelas censuras dos que não o perdoam pelo que afirmam exílio espontâneo. E tenta se convencer, com unhas e dentes, de que não tivera escolha: seria partir ou se deixar aniquilar pelo esterilidade do marasmo provinciano. Um pretexto para muito mais se justificar a si mesmo que aos outros.
        O fato é que o autor se fez inteiro na sua criação literária, segundo aconselharia Clarice Lispector (1980. p. 8), permitindo-se gerá-la como um artista “ mettre à l’aise”, isto é, a “se faire passer pour léger quand on est doublement angoissé par la sémantique et l’apocalypse  (BEIGBDER: 2015, p. 8).
         Conjugando realidade e ficção, verdades e mentiras, Lêdo Ivo, com Ninho de cobras, produziu, enfim, uma obra que, como que atrair a lição de Antonio Candido: “embora filha do mundo (...) é um mundo”. (2004, pág. 105).
         O mesmo Lêdo Ivo que, no poema Minha Terra, confessa: “Sempre juntei no mesmo prato/ as espinhas dos meus peixes/e o sobejo dos meus sonhos. “ (2004, p. 527-529)
         Pois foi o que fez em Ninho de cobras.
         Não há, portanto, como, a partir das possíveis cores pejorativas do título da obra, já concluir que, ao olhar de Ivo, Maceió seria um reduto de serpentes e os alagoanos seriam seres viperinos entocados em uma loca sinistra. O que se vê é uma alegoria que tomou por empréstimo uma cidade e uma gente. É uma obra literária que é um mundo em que instilado o genuíno mundo do seu autor, com todas as suas interrogações sobre a natureza humana, suas inquietações e sua repulsa a um mundo contaminado pelas contradições e pelas diabruras que, de uma forma ou de outra, negam os pretendidos avanços civilizatórios.
           

FONTES PRIMÁRIAS:

1.       IVO, Lêdo. Ninho de Cobras – Uma história mal contada. Rio de Janeiro: J. Olympio. 1973.
2.       _________ Ninho de Cobras – Uma história mal contada. Rio de Janeiro: Editora Record. 2ª ed. 1980.
3.       _________ Poesia completa. Rio de Janeiro: Topbooks Editora e Distribuidoras de Livros Ltda, 2004.



FONTES SECUNDÁRIAS:


1.       BARBOSA, Rui. Oração aos moços. São Paulo (SP): Editora Martin Claret Ltda. 2003.
2.       BEIGBDER, Frédéric. Conversation d’un enfant du siècle. Paris: Bernard Grasset. 2015.
3.       CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. São Paulo: Ouro sobre Azul, 2004.
4.       LESSA, Fábio Lins Lessa. Ninho de cobras: LÊDO IVO e a descrição da sociedade alagoana. Cultura e Viagem
          https://culturaeviagem.wordpress.com/2014/10/07/ninho-de-cobras-a-obra-prima-de-ledo-IVO-e-a-descricao-da-sociedade-    
          alagoana/   (Postagem: 07.10.2014 - Consultado em 25.08.2016)
5.       LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
6.       LLOSA, Mario Vargas. La civilisation du spectacle. Paris: Editions Gallimard. 2012.
7.       _________Cinco Esquinas. Rio de Janeiro: Alfaguara. 2016.
8.       MAILER, Norman. A luta. São Paulo: Companhia das Letras. 2011.
9.      MATOS, Anderson Hakenhoar. Romance sem romance: o caso de Água Viva de Clarice Lispector. Porto Alegre: Letrônica, v.2,                    
          n.1, p. 316, jul. 2009.
10.     MÃE, Valter Hugo. A máquina de fazer espanhóis.  São Paulo: Editora Globo S.A. (Biblioteca Azul). 2016
11,     MÉRO, Carlos. O beco das sete facadas e outras estórias alucinadas. São Paulo: Marco Zero. 2004.    
12.     MOGENET, Jean-Philippe. Fábulas de Esopo (ilust. por Jean-François Martin). São Paulo: Companhia das Letrinhas. 2013.
13.     MOISÉS, Massaud. A criação literária. São Paulo: Cultrix. 2ª edição. 2012.
14.    OLINTO, Antonio. Ninho de cobras – Uma obra-prima do romance moderno (Texto introdutório ao romance)Rio de Janeiro:               
         José Olympio. 1973.
15.    OLIVEIRA, Franklin de Oliveira. Nota in Modernismo e Modernidade, de LÊDO IVO. Rio de Janeiro: Livraria São José. 1972.
16.    ROZSAS, Jeanette. Edgar Allan Poe – O mago do terror. São Paulo: Melhoramentos. 2013.
17.    _________. Kafka e a marca do corvo. São Paulo: Geração Editorial. 2009.
18.    TALESE, Gay. Honra teu pai. São Paulo: Companhia das Letras. 2011.
19.    WESTLAND, Peter. Literary appreciation. Londres: The English University Press.